COLMATAR O HIATO, TAPAR BURACOS OU COMO ADIAR UM PROBLEMA EMINENTE

"COLMATAR O HIATO, TAPAR BURACOS OU COMO ADIAR UM PROBLEMA EMINENTE"

"TO FILL IN A GAP, TO PLUG IN A HOLE OR HOW TO POSTPONE AN EMINENT PROBLEM"

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All works by Hugo Brazão (2017)

Direction Márcia de Sousa & Hugo Olim

Textile Production Soraia Samju & Hugo Brazão

Photo Credits Ingrid Pumayalla & Hugo Brazão

Photo Editing Hugo Brazão

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(versão portuguesa mais a baixo)

(ENG)

This exhibition was the result of a collaboration between Galeria dos Prazeres and MUDAS. Contemporary Art Museum of Madeira. The exhibition is shown simultanously in both spaces. 

Part of the works were produced during a residency in Prazeres, Madeira Island.

In the post-truth era that we live in, the boundaries between fiction and reality, between what’s false or true, tend to blur more than ever. There is a constant confrontation between these two opponents and we are never sure which one is which.

 In more recent years, with digital means of communication, any person was given the opportunity to create its own reality and, more importantly, to spread this reality to a wide public. This new concept of creating reality, together with the high speed these type of content is spread, took us to the point where we now find ourselves in. A point where it’s now considered by individuals with high political roles and where it has been used as a weapon to spread certain controversial ideals.

According to Baudrillard[1], a simulacrum it’s a copy that represents elements that have never existed or that no longer have their equivalent in reality. He defends that a simulacrum it’s nor the medium of reality, nor its dissimulation. A simulacrum only makes us understand that the concept of reality it’s irrelevant for the understanding of our modern day life.

 The act of “plugging in a hole” or “filling in the gaps”, either concrete or metaphorical, assumes that there is a problem that is trying to be solved.

  To plug in a hole, it’s usually a solution that it’s not definite. It’s seen as a last minute resource that it’s trying to cover up a more complex problem. The omission of the truth for it’s own convenience.

 Although “to fill in a gap” refers to a similar act as “to plug in the hole”, it has a less pejorative connotation and it means to make something more complete, by creating a linking point between two different subjects.

 In this show it’s taken as the truth there once was a real physical link between the two exhibition spaces: a 3.9km tunnel that goes in a straight line between the MUDAS.MACM Gallery and Galeria dos Prazeres. The archaeological evidence that it’s left of this passage that it’s now covered up and unusable, it’s the wood ovens that can be seen in both the spaces. That is what it’s believed to be the entrance to this tunnel. The textile panels in the room symbolise the acceptance of a truth that can not be proved.

 The sculptures make use of the imperfections of the material they were made of. These defects were caused by a disease that affected the trees and resulted in their death. While the exterior of the sculptures is apparently in good state, and all those imperfections covered up, it’s interior is still in mutation and it’s difficult to predict if it’s going to deteriorate more or if the treatment that was given to it will slow down this process.  

 In this exhibition the concept of real and fictional has been explored by merging different episodes, memories and landscapes that exist or existed in the past, with others that have never happened or existed. By exploring this undefined border between what’s fabricated or authentic, we question ourselves the pertinence of these terms in the present-day.

What truths are undeniable and need our immediate action. In what circumstances we need to bridge the gaps between different positions. When do we need to question ourselves if something is genuine or not.

In what situations we have to “fill in the gaps”, in what situations we can not “plug in the holes” anymore, in what situations we can not “postpone an eminent problem” any longer. 

 

 

[1]  BAUDRILLARD, Jean,  Simulacra and Simulation, Éditions Galileé, 1981

(PT)

Na era da pós-verdade em que vivemos, a fronteira entre ficção e realidade, entre o que é falso e aquilo que é verdadeiro, tende a se confundir mais do que nunca. Há um confronto constante entre estas duas oponentes, mas nunca podemos ter a certeza de qual é qual.

 Nos anos mais recentes, com os meios de comunicação digital, qualquer pessoa passou a ter a possibilidade de criar a sua própria realidade e, mais importante, de poder divulgá-la a um grande público. Este novo conceito de criar uma realidade, e a grande velocidade a que este tipo de conteúdo se dispersa, trouxe-nos ao ponto em que nos encontramos agora. Um momento em que este conceito passou a ser considerado por indivíduos com altos cargos políticos e a ser usado como arma de divulgação de ideais controversos.

 

Segundo Baudrillard[1] um simulacro é uma cópia que representa elementos que nunca existiram ou que já não possuem o seu equivalente na realidade. Os simulacros não são nem mediações da realidade nem a sua dissimulação. O simulacro apenas nos dá a entender que o conceito de “realidade” é irrelevante para a actual compreensão das nossas vidas.

 

 O acto de “tapar buracos”, “preencher lacunas” ou “colmatar hiatos”, quer seja concreto ou metafórico, pressupõe a existência de um problema que está a tentar ser resolvido.

Tapar buracos é visto como um remedeio ou “desenrasque” que pretende limar a superfície de um problema mais complexo, quase como a omissão de uma verdade por conveniência.

Embora “preencher lacunas” ou “colmatar hiatos” sejam expressões sinónimas de “tapar buracos”, estas primeiras têm uma conotação menos pejorativa e referem-se à ideia de tornar algo mais completo, de criar um ponto de ligação entre duas matérias.

 

Nesta exposição é assumida como sendo verdade a anterior existência de uma ligação directa, concreta e física entre os dois espaços expositivos, um túnel de 3.9 km de comprimento que seguiria em linha reta entre a Galeria do MUDAS.MACM e a Galeria dos Prazeres. A evidência arqueológica que resta desta passagem que agora se encontra inutilizada e tapada, são os fornos a lenha situados em ambas as salas de exposição, que se acredita que tivessem sido a antiga entrada para este túnel. Os painéis feitos em tecido, onde se podem ver ilustradas essas mesmas entradas, simbolizam o assumir de uma verdade que não pode ser confirmada.

 

 As peças escultóricas fazem uso dos defeitos do próprio material, que foram causados por uma doença que afetou a madeira e que acabou por resultar na morte das árvores. Enquanto o seu exterior está aparentemente em bom estado, e todos esses defeitos “tapados”, o seu interior continua em mutação e é uma incógnita se irá se degradar mais ou se o tratamento que lhe foi dado diminuirá a sua deterioração.

 

Esta exposição explora o conceito de real ou fictício, misturando episódios, memórias e paisagens que existem ou existiram, com outros que nunca aconteceram ou existiram. Ao explorar esta fronteira pouco definida entre o que é fabricado e aquilo que é autêntico, levantam-se questões sobre a pertinência destes termos no mundo actual. Que verdades são inegáveis e precisam de acção imediata, em que circunstâncias precisamos criar pontos de ligação entre diferentes posições e quando é que nos devemos questionar se algo é genuíno ou não?

Em que situações temos que “colmatar os hiatos”, em que situações não podemos “tapar mais buracos”, em que situações não podemos mais “adiar um problema que está eminente”?

 

 

[1]  BAUDRILLARD, Jean,  Simulacra and Simulation, Éditions Galileé, 1981