TAKE TEN

Las Palmas project space, Lisbon, Portugal, 2019
All works by Hugo Brazão.
Textile production Hugo Brazão and Soraia Samju
Text by Carolina Forjaz Trigueiros
Photo by Samuel Duarte

[ENG]

Hugo Brazão works in different media, selecting different materials in each different project or challenge that he takes. The first stimulus is, in many occasions, a result of the space and context, unravelling a set of references, archived or accumulated research, that go from popular culture to a digital universe without any hierarchy or prejudice. The crossing between painting, sculpture or textile is as natural as these multiple associations. They are so diverse that they open the way to a flexible narrative, that doesn’t lead to any definite or linear conclusions. Like an extension from his thinking.

The context is the catalyser of ideas that takes shape in a similar way to a medley of strings. Like a hyperlink of connections that can contain ambiguous information, that contradict themselves, depending on its user and on each visualisation. Ideas that can manipulate or be manipulated and, because of that, like a trap between what we believe in, what we think we know and what we experiment with… In this ambiguous game of references, the artist founds his plot, materialises this web of thoughts and stimulates a narrative.

Following this note, we can now attempt to explain the current simulacrum: the artist appropriates the colour of the walls of Las Palmas, as if that was purposeful for this show. This dissolution between what is an implicit condition of the space and what could be an artistic intention, pronounces the connections that are built around this shade of pink.

A very similar shade of pink has been coined in the 70s by Alexander Schauss. He was interested in analysing how colour affects people psychologically and physically and claimed that this shade of pink has a calming, therapeutic effect, and it can reduce aggressive and hostile behaviours. During this research the Schauss pink, P-618, or due to this incident Baker-Miller Pink, was tested in the prison cells of the Naval Correctional facilities of Seattle, Washington, where – apparently – the beneficial effects of the exposure to this colour were proven. This tendency was spread to other places (clinics, sport’s locker rooms, etc) and has always been controversial, with disparate and not very clear results.

Following this idea, we can see in the textile piece by the entrance, the attempt to reach to the origin of this shade of pink and its therapeutic properties. In this case, to its closest natural pigment: the cochineal red – extracted from the dried body of mature female cochineal bugs that live in some species of cacti. However, this process banalizes the death of thousands or millions of insects that, if they can be seen as a plague, they also produce the famous carminic acid (E-120).  In that way, the various elements of the exhibition converge, contaminate each other, produce a dialogue, but also contradict themselves. Between what is said and what is omitted. 

There is an effort in the artistic process that involves cataloguing the name or possible definition of this colour. There is a youthfulness and patent irony in the use of, for example, Calamine powder in one of the works, to allude the soothing properties of this mineral; Himalayan salt in another work, or even Bismuth subsalicylate (Pepto-Bismol) – known for temporarily treating digestive problems. But, in any case, the excessive use of any of these products can have secondary effects, the same as if you are exposed to the shade of pink on the walls, as supposedly proved by Schauss.

 So, if everything is calm, at the same time everything seems not to be. If the exhibition space is a metaphor for a pacific, serene, space of well-being, we also shouldn’t feel that tranquil. As the painting that references the Pink River Dolphin, that is after all an endangered species of dolphin. And it’s this latent subtext that reformulates all the assumptions taken and that will interpolate us. When everything is pacific, we can stop thinking and being critical and open. Anxiety and enthusiasm can, in many cases, live together.

This way, this artistic exercise has, in practicality, the methodical aspects of a therapy: the artist dedicates time to tidy up and mess up different concepts, similar to the psychoanalytical model of free association. The ambiguity of the objects, paintings and the fountain itself that keeps running, gradually transforming the ambient, and renovating another layer of possible interpretations. Mixing episodes, temporal chronologies, names and landscapes that exist or existed in the past. References from reality as well as from the imaginary.

There is something that is incoherent and, sometimes, uncomfortable. The artist shuffles the cards. Exchanges eventual truths for other questions, and we are back to doubt. As in the world we live in: an amalgamation of references that overlap each other.  It is in this subversion of objects, parody and of a fountain with a potential calming effect, that we can ask: do we have ten minutes?

TAKE TEN doesn’t assume that art can cure, or that it is therapeutic. Or that the shade of pink on the walls can do so. It also doesn’t revolutionize or break. It stages it. In many ways and in the best-case scenario, it suggests to notice something. At least for 10 minutes. We all know that humour can be a powerful tool. Especially when we are talking about serious issues. The absurd can help us to understand the other side and create new narratives and paths… maybe even about ourselves.

Carolina Forjaz Trigueiros, 2019

[PT]

Hugo Brazão trabalha em diferentes media elegendo, ao sabor de cada projecto ou desafio que se propõe, outros suportes e materiais. O estímulo primeiro é, muitas vezes, resultado do espaço e contexto, encadeando um conjunto de referências, pesquisas em arquivo ou acumulações, desde cultura popular até um universo digital, sem hierarquias ou prejuízos. O cruzamento entre pintura, escultura ou têxtil é tão natural como estas associações múltiplas. Tão diversas que abrem caminho a uma narrativa flexível, sem conclusões definitivas ou lineares. Como uma extensão do pensamento.

O contexto é assim catalisador de ideias que tomam forma à semelhança de um emaranhado de fios. Como umhiper-link de conexões que pode conter informações duplas, contraditórias, consoante cada utilizador, cada visualização. Ideias que podem manipular ou ser manipuladas e, por isso, uma armadilha entre aquilo que cremos, o que julgamos saber, e o que experimentamos... Neste jogo referencial e ambíguo, o artista funda a sua trama, dá matéria à sua teia, corda à narrativa.

Com esta nota, podemos agora atentar ao simulacro presente: o artista apropria-se da cor das paredes do Las Palmas, como tal fosse propositado para a exposição em questão. Esta dissolução entre o que é uma condição implícita do espaço e aquilo que pode ser uma intenção artística prenuncia as ligações construídas em torno deste tom rosa.

Na verdade, um tom muito similar ao das paredes foi cunhado por Alexander Schauss nos anos 70. Schauss estava interessado em analisar a forma como a cor afecta psicológica e fisiologicamente as pessoas, alegando que “este” rosa tinha um forte efeito calmante, terapêutico, capaz de reduzir comportamentos agressivos ou hostis. No decorrer destas pesquisas o tom Schauss pink, P-618, ou devido a este incidente Baker-Miller Pink, foi testado em celas prisionais de um instituto naval correcional em Seattle, Washington, onde - aparentemente - os efeitos benéficos de exposição à cor durante alguns minutos foram comprovados. A tendência alastrou-se por outros espaços (clínicas, balneários, etc), sempre envolta de controvérsia e resultados, por vezes, díspares e pouco claros.

Neste seguimento, encontramos de forma evidente na peça inicial em tecido, a tentativa de chegar à origem deste tom, destas propriedades terapêuticas. Neste caso, ao pigmento natural mais próximo: o vermelho da cochinilha - extraído do corpo seco de fêmeas adultas de cochonilha, que vivem em certas espécies de cactos. Contudo, este processo implica banalizar a morte de milhares ou milhões de insetos que, se por um lado são considerados uma praga, por outro, produzem o famoso ácido carmínico (E-120). Assim, os vários elementos da exposição convergem, contaminam-se, dialogam, mas também contradizem. Entre aquilo que se diz e o que se omite.

Procura-se demostrar o processo artístico envolvido na catalogação de um nome, ou na definição possível que contenha esta cor. Há uma juvenilidade e ironia patente na utilização, por exemplo, de pigmento de calamina num dos trabalhos, aludido às propriedades calmantes do mineral; Sal dos Himalaias noutro, ou ainda, Subsalicilato de Bismuto (ou Pepto-Bismol) - conhecido por tratar temporariamente problemas digestivos. Mas, em todos os casos, o uso a longo prazo ou em demasia pode ter efeitos secundários, tal como uma exposição prolongada a “este” tom de rosa, segundo os testes de Schauss.

Por isso, se tudo está calmo, também tudo parece não o estar. Se o espaço expositivo é metáfora para um lugar pacífico, sereno, de bem-estar, também por nada devemos estar assim tão tranquilos. Tal como a pintura que alude ao Boto-cor-de-rosa, uma espécie de golfinho fluvial, afinal, em vias de extinção. E é este subtexto latente que reformula todas as assunções até agora feitas, que nos interpela. Quando tudo é pacífico podemos deixar de pensar, de ser críticos, de ser abertos. A ansiedade e o entusiasmo, muitas vezes, coabitam.

Assim, o exercício apresentado tem, na prática, o aspecto metódico de uma terapia: o artista dedica-se a arrumar, desarrumar e modificar conceitos, à semelhança do modelo psicanalítico de associação livre. É a ambiguidade dos objectos, das pinturas, da própria fonte que continua a correr, paulatinamente a transformar o ambiente, a renovar mais uma camada de leituras. Misturando episódios, cronologias temporais, nomes e paisagens que existem ou existiram. Referências do plano real ou imaginário.
Há algo de incoerente e, por vezes, incómodo. O artista baralha as cartas. Troca eventuais verdades por outra perguntas, e regressa à dúvida. Tal como os tempos em que vivemos: uma amálgama de referências que se vão sobrepondo. É nesta subversão de objectos, paródia, e fonte em potência tranquilizante, que podemos perguntar:temos 10 minutos?

Take Ten não parte do princípio que a arte cura, nem que é terapêutica. Nem que o tom das paredes o pode fazer. Também não revoluciona, nem rompe, não corta. Encena. Por muitas formas e, no melhor dos casos, propõe-nos que reparemos. Nem que seja 10 minutos. Sabemos que o humor pode ser uma ferramenta poderosa. Principalmente quando se quer falar de assuntos sérios. O absurdo pode ajudar a compreender outros lados, novas narrativas ou caminhos... Até sobre nós próprios.

Carolina Forjaz Trigueiros, 2019